O comboio fazia o seu percurso como sempre fazia todos os dias. As pessoas que se encontravam nele tinham todas o rosto cansado a ansiar chegar a casa o mais depressa possível. O dia foi cansativo, e a rotina por mais um dia deixou a todos esgotados. Havia dois casais sentados um em frente ao outro. Uma mulher com cabelo curto e loiro com um homem magro à sua frente, de camisola vermelha e com expressões fortes e vincadas. Ao lado da mulher loira, estava uma mulher de fato de treino, com uma camisola verde fluorescente e uns tênis de cano alto que estavam no chão, enquanto essa mesma mulher pousava os seus pés só com meias, no colo do homem que estava à sua frente, magro e com uma camisola de malha beje.
Dava para notar que o dia tinha sido cansativo mas porém, divertido, pois o homem da camisola vermelha estava com uma câmera fotográfica profissional a divertir-se e a rir-se em simultâneo com o homem da camisola de malha beje. Já a mulher loira vinha a comentar trechos do seu dia com a mulher dos pés descalços, enquanto que esta, ao mesmo tempo brincava com os pés no colo do marido. Mexia os dedos para a frente e para trás, para a frente e para trás... O marido às vezes olhava para ela, outras vezes olhava para o mapa de guia turística que tinha na mão. Eram espanhóis, notava-se na descontração da mulher descalça, e nas gargalhadas barulhentas, mas agradáveis, que soltavam com despreocupação.
Isto tudo foi o que consegui apanhar da minha viagem de 45 minutos até casa. Não sei porquê mas foi um episódio que decidi partilhar convosco. Estavam todos com cara de queixume e de mal humor por causa de mais um dia esgotante, excepto aqueles quatro. Achei de uma beleza enorme toda aquela descontração ao final do dia. Já as outras pessoas que estavam no comboio, olhavam para eles estupefactos e confusos por não perceberem o que se estava a passar, com cara de como quem pergunta; «É o final do dia, qual é a graça?».

Gosto tanto desses pequenos momentos que temos oportunidade de ver nas viagens. Encontramos sempre algo que nos deixa a pensar. E verdade seja dita, temos sempre de encontrar a graça no final do dia, aproveitá-lo até que acabe :)
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