sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Espero que tenham paciência para ler. Sou uma romântica incurável, por isso, não podia deixar de compartilhar convosco a minha mais recente leitura de um livro que faz parte dos "clássicos" da Europa-América. Aqui vos deixo um pequeno excerto do momento mais arrebatador do livro; como diz o narrador "A todos os amantes,... (...) Possam eles dela tirar reconforto contra as traições, contra as injustiças, contra as dores, contra as lágrimas, contra todos os desgosto de amor!".

«(...) Ora, Tristão, a quem a chaga retém estendido, sofre o martírio no seu leito: nada o consegue aliviar, nenhum remédio lhe serve e, o que quer que faça, nada o acalma. Se ainda se esforça por prolongar a vida, é porque aguarda a chegada de Isolda, a loira, esperando que ela venha e lhe alivie o mal. Todos os dias envia alguém a beira-mar para espiar o retorno de Kaherdin, e este único desejo lhe absorve todo o ardor da alma. (...)
O navio que trazia a amiga tão desejada aproxima-se agora da costa. (...) O vento sopra furiosamente, levanta as chagas, o mar agita-se até às profundezas, o céu escurece e uma bruma espessa estende-se sobre as ondas negras. (...) Isolda, a loira, impressionada com o espectáculo da tempestade, dirige-se a Tristão como se este a pudesse ouvir: "Deus não me quer deixar viver o suficiente para te rever, meu amigo. Decidiu que eu pereceria afogada no mar. Tristão, se pudesse falar-te ainda uma vez mais, não me importaria com a minha morte. Mas não depende da minha vontade estar perto de ti nesta hora; se Deus o permitisse, já estaria ocupada a curar o teu mal. Amigo, eis o fim de um sonho! Pensava morrer nos teus braços e repousar contigo no mesmo túmulo. Ai de mim!, é mais uma ilusão que temos de perder!" (...)
Cúmulo do infortúnio: eis que o vento abranda, o sol aquece, o mar fica numa calmaria total, a nau não se move nem para um lado nem para outro e deixa-se embalar pelo marulho das vagas. Os marinheiros estão exasperados: a terra está ali à vista deles, mesmo próxima, e nenhuma brisa os empurra para ela. Ei-los no pior dos embaraços.
Entretanto, Tristão, dolente e cansado, por vezes queixa-se, por vezes suspira por Isolda que tanto deseja. Torce as mãos e as lágrimas correm. Neste desgosto, nesta angústia, vê a mulher avançar para ele; esta lembra-se de um pérfido artifício e diz-lhe:
- Kaherdin está a chegar! (...)
Ao ouvir estás palavras, Tristão sobressalta-se e pergunta:
- Bela amiga, estais absolutamente certa de que é a nau de Kaherdin?
-Não duvideis; reconhecia bem.
- Dizei-me, peço-vos, não mo escondais: de que cor é a vela que esvoaça na verga? (...)
- A vela é preta!
Tristão não responde nada. Volta-se para a parede e diz:
- Isolda, não quisestes vir para junto de mim! Por vosso amor tenho de morrer hoje! - Depois, após um curto instante, acrescenta numa voz apagada: - Não posso reter a vida mais tempo. Por três vezes, pronuncia: "Isolda amiga!"; à quarta, entregou a alma a Deus.
No mesmo momento, o vento levantou-se no mar: conduziu sem tardar até à margem a nau de Kaherdin. Antes de qualquer outra pessoa, Isolda, a loira, desceu a terra. (...) Pergunta aos transeuntes a razão por que tocam os sinos, por quem chora todo aquele povo. Um velho responde-lhe:
- Bela dama, que Deus me ajude! Aconteceu nesta terra uma grande infelicidade. Tristão, o bravo, o franco, morreu! Acaba de falecer na cama de uma ferida de que nenhum médico o pôde curar.
Ao ouvir esta notícia, Isolda, a loira, fica muda de cor. Corre pelas ruas como uma louca, o vestido desapertado, pois quer chegar antes dos outros ao castelo. (...)
Isolda transpõe a porta do castelo e atinge logo o quarto onde repousava o corpo do amigo. (...)
- Amigo Tristão, morreste por amor de mim. Uma vez que já não vives, também eu não tenho nenhuma razão para viver. Tudo doravante me será sem doçura, sem alegria, sem prazer. Maldita seja a tempestade que me atrasou no mar! Se tivesse podido chegar a tempo, ter-te-ia devolvido a saúde e teríamos falado do terno amor que nos une. Mas já que te não posso curar, que possamos ao menos morrer juntos! - Aproxima-se do leito e estende-se a todo o comprido sobre o corpo de Tristão, rosto com rosto, boca com boca. Neste abraço supremo, sucumbe à violência da dor e expira num soluço. (...)
O Rei Marcos ficou comovido (...) e quando viu os dois corpos embrulhados nas peles de veado e deitados nas barcas, sentiu extinguir-se a cólera e acalmar-se o ressentimento,... (...) Com grandes honras, no meio das lamentações da arraia-miúda, mandou enterrar perto de uma capela os corpos dos dois amantes. No túmulo de Isolda, a loira, plantou uma roseira vermelha e no de Tristão um cepo de nobre vinha. Os dois arbustos cresceram juntos e os seus ramos entrelaçaram-se tão intimamente que foi impossível separá-los; de cada vez que os podavam, tornavam a crescer com todo o vigor e confundiam a sua folhagem.»

in Tristão & Isolda, capítulo XXXVI "A morte dos amantes"

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