Passaram-se dois meses e catorze dias, exactamente setenta e cinco dias desde a última vez que aqui escrevi. Andei a evita-lo fazer por ter medo de enfrentar a verdade, de perceber que os últimos terrores aconteceram mesmo. Ironicamente, o meu último post têm uma frase de Caio Fernando de Abreu que assenta a tudo o que se passou. «A gente passa a vida toda achando que é imortal.» Até que ponto é isto verdade?
A vida é irremediavelmente injusta, e a nós cabe a capacidade de aprender a aceitar. No dia dez de Maio um ciclo da minha vida fechou-se, sonhos meus foram água a baixo, segredos reconhecidos, planos foram esquecidos e as minhas lágrimas vieram explodir e fazer verter toda a minha fraqueza. Nós seres humanos somos assim. Perdi, não sei se para sempre, o meu primeiro amor. Creio eu, que foi o único amor a quem eu fui completamente submissa. Não o esqueci e penso que nunca o vou esquecer, mas para agora consegui estabilizar-me. Ele encontra-se adormecido algures dentro de mim, de uma maneira que não me faz chorar. Posso dizer que estou feliz.
Agora tu, amigo. Partiste para o céu, para um universo paralelo, para outra dimensão ou para o que quer que seja. A verdade é que ninguém nos sabe dizer para onde é que a morte leva as pessoas. Como também ninguém sabe dizer como é que é suposto recuperarmos de tal. Nos últimos meses vi reacções diferentes umas das outras; pessoas a chorar, pessoas a gritar, pessoas a beber, pessoas a fecharem-se, outras que viveram os dias como se nada se tivesse passado. Cada uma agarrou-se aquilo que lhes dava força, aquilo que acreditavam ser verdade, e acho que é esse o grande segredo. Eu agarrei-me às últimas palavras que ouvi-te dizer-me, para ter calma, para deixar o tempo passar, que já tinhas feito o mesmo e que te arrependes-te, que quem se ia sentir no lixo mais tarde não era eu. Lembro-me tão bem desse dia, dia dez ainda, eu sentada na cozinha em lágrimas com quatro pessoas ao meu lado a dizer para me acalmar, e no meio delas estavas tu. Não tenho palavras para descrever o dia dezanove de Maio, quando decidiste que o teu tempo aqui se tinha esgotado. Sentia-me num drama daqueles que só se vê no teatro. Tento lembrar-me dos primeiros dias sem ti cá e vejo tudo turvo, vejo lágrimas, sorrisos fracos, vejo a tua menina desamparada. Nós cuidamos dela, amigo, mas sabemos que com a ajuda dos nossos aí, também nos ajudas. Ainda te sentimos aqui, no meio de nós, a beber vinho tinto e a dizer asneiras. Ainda fazemos todo o ritual. Quando abrimos uma garrafa, despejamos um bocado na pia da cozinha em memória a ti, quando abrimos tinto brindamos e dizemos "ao Diogo", por isso, descansa. O que era teu continua a ser teu, e o que eras para nós continua a ser até hoje e até ao dia em que cada um de nós decidir partir também. Até quando tiver de ser, e obrigada pelo ensinamento. Amigo.
Sem comentários:
Enviar um comentário