quarta-feira, 4 de abril de 2012

Estava cansada de estar naquela fila, que apesar de pequena, duradoura. Absorvida pela fadiga de estar à espera demorei algum tempo a reparar no miúdo que se encontrava à minha frente; rondava os 12 anos de idade e tinha uma estrutura baixa mas forte, com cabelo curto e usava óculos. Ele articulou algumas palavras que me soaram macias, numa voz doce e com ar meloso. Foi então que fiquei retida numa dimensão oculta durante um segundo, que era contrariamente enorme.
Pensei em ti. Ouvi-te dizer «hoje ouvi aquela música dos Scorpions, sabes?», ouvi-me dizer «claro que sei, o teu bom gosto musical deve-se a mim» ao qual respondes-te «olha, que lata», como sempre. Lembrei-me daqueles dias em que íamos fazer praia, daquele arroz queimado que fiz para nós um dia e que me gozas ainda hoje, daqueles ataques de riso inexplicáveis, daquele teu feitio enjoado, daqueles dias em que me ias subornar com a tua companhia para eu te oferecer um gelado, daquelas últimas fotos que tiramos, daquele último abraço que demos...
Senti uma espécie de vulto passar-me em frente aos olhos e apercebi-me que se tratava do miúdo que me fez lembrar de ti a sair da loja. Não olhei para trás, resisti à minha demência de acreditar que eras tu, afinal, estás do outro lado do oceano.
Desta vez consegui reter as lágrimas que cedem sempre quando penso em ti. Tenho saudades tuas primo. Meu único e pequenino irmão.

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