Ela estava contente por ir conduzir, mas antes disso decidiu subir uma grua que estava ali, algo lhe chamava para ir ao topo. Subiu. E começou a ficar tonta com a altura, até que chegou à ponta da grua e lá no topo deitou-se e agarrou-se com medo de cair. Ela só se lembra de fechar os olhos e ver-se saltar para uma equipa de bombeiros que estava lá em baixo com uma rede para lhe salvar, ela salta e houve os gritos de pavor da mãe, sente tudo à roda e só vê preto, preto e preto...
Abriu os olhos e sentiu um ar diferente, olhou para a mãe e perguntou «o que se passou?» a mãe a sorrir disse «estiveste em coma durante cinco anos» e continuou a arrumar a casa. A rapariga começou a entrar em pânico por dentro e não sabia com o que se preocupar primeiro; com a idade? O que se passou até ali? O que se passa no agora?
Só depois de algum tempo é que ela percebeu que tinha o corpo nu, «mãe onde estão as minhas roupas?», «deitei-as fora no terceiro ano, não me queria lembrar disto» e continuou a limpar a casa. Ao lado estava o seu avô com uma cara estranha e desfigurada, a rir-se da figura da rapariga enquanto que a mesma, só sabia chorar. Talvez porque não tivesse o que vestir, talvez porque se sentia ignorante ou talvez porque tinha percebido que estava no Brasil. Ela andou desesperada por toda a casa, tinha muitas divisões confusas em que todas as paredes eram verdes, a dividir os compartimentos, existiam cortinas feitas de tiras que se enrolavam em quem tentava passar. Ela viu um bebé gordo de bruços deitado num berço que aparentava ser uma menina, mas ela não quis saber. «Mãe o que vou vestir?» perguntou aos gritos e entre lágrimas, enquanto a mãe lhe dava um pijama cor-de-rosa e a acompanhava a casa de banho. Olhou-se ao espelho e sentiu-se mais velha, agora tinha 23 anos... «Eu não acredito que me fizeste isto, eu não acredito que estou aqui! Onde está ele? O que disseram a ele? O que fizeste ao meu relacionamento? Eu estou a sonhar! Quero acordar!», a rapariga desmaiou e sentiu raios a percorrer-lhe o corpo e só ouvia a mãe dizer «acorda, acorda, acorda»... Deu por si sentada num sofá numa sala que lhe era familiar, para dizer a verdade era idêntica à sala do seu antigo apartamento, e viu o seu pai, o seu tio e a sua irmã do meio. Teria ela acordado? «Quantos anos passaram?» perguntou ela à irmã avistando de imediato um computador e perguntando no mesmo instante ao seu tio «tem Internet?», «sim!» riu-se o tio, «cinco anos» respondeu a irmã indiferente. Ela saiu disparada e enquanto abria a página na Internet que lhe interessava reparou que o computador tinha ar de ser mais antigo e inferior àquilo que estava a espera depois de cinco anos. O coração batia-lhe forte e quando a rede social abriu, o visor estava baço e a página lenta, parecia que tudo era feito para lhe aumentar o desespero que sentia. A tristeza inundou-lhe ainda mais quando viu não ter nenhum recado para ela, só existia uma foto nova dela e de uma amiga, o resto parecia ter-se esquecido... Reparou que ainda dizia «num relacionamento» e sentiu um ligeiro alívio, abriu a página dele e não dizia nada, nada além de conversas normais como se a vida continuasse para todo o mundo, como se nada se tivesse passado. O coração começou a doer-lhe, sentiu o aperto mais forte que alguma vez havia sentido, pensou que ia morrer, não conseguia respirar, até que...
Abri os olhos e vi o meu quarto intacto, tal como havia deixado na noite anterior, olhei para o telemóvel com medo e tinha uma mensagem dele, ouvi o vento lá fora e finalmente respirei. Afinal o mundo continuava igual, nada havia mudado, fora só um sonho. Um mau sonho. Eu que em tempos pensará que o pior de tudo era a morte, reparei que... O pior de tudo é continuar-se vivo e arrancarem de ti, sem pena nenhuma, tudo aquilo que amas.
Sem comentários:
Enviar um comentário